Padre Luciano

Um Padre. Completamente diferente daqueles que existem. Lembro-me na viagem aos Açores, que estava a vaguear numa igreja e passa um senhor ao pé de mim e disse-me com um sorriso "Olá jovem". Fiquei a olhar para ele e mostrei-lhe um pequeno sorriso, e segui em frente. Mas notei que não era um senhor qualquer por causa do olhar, aquele olhar que conseguiu penetrar na minha alma naquele instante. Virei para trás, o senhor reparou e olhou para mim, para disfarçar segui o meu caminho. Esse mesmo senhor, mais tarde veio ter comigo e mais uns amigos meus, éramos quatro jovens. Mostrou-nos o órgão, tocou o Ave Maria e naquele momento a igreja pareceu que tinha ganho vida. Os lindos anjos sorriam, os vitrais tinham mais cor porque o sol brilhava mais, tudo preencheu-me a alma. O Senhor convidou-me para tocar no órgão, sempre tímida, sentei-me devagar, olhei para os meus amigos e toquei nas teclas do órgão e em poucos segundos parecia que estava num sonho. O senhor estava com um pólo cor-de-rosa e calças pretas. É careca e baixo.

Descobri mais tarde que era maestro de um coro, quando fui cantar juntamente com o meu grupo na igreja. No dia seguinte fomos todos juntos passear, às vezes o senhor metia-se comigo, porque naquela altura, era uma rapariga muito fechada e não falava com ninguém, apenas limitava a olhar para as pessoas. Perguntou-me que idade tinha, se tinha feito a primeira comunhão..."Oh Senhor Padre! Vamos cantar todos juntos a Senhora d'Aires!" Disse uma senhora Açoriana que estava a almoçar connosco. Não que tenha medo de Padres, mas são pessoas que dedicam muito a uma religião, e tem que haver respeito quando se está a falar com uma pessoa deste género. Fiquei pasmada a olhar para o senhor, é das pessoas mais doidas que já conheci em toda a minha vida, era completamente radical! "O Senhor é Padre?" disse eu. "Sou sim", disse o Padre Luciano. O meu maestro que estava ao meu lado, riu-se, e os meus companheiros de viagem ficaram de boca aberta. Naquele momento começamos a chamar-lhe Padre. Fizemos grandes noitadas até às tantas, e o Senhor Padre oferecia-me sempre licor de canela e eu rejeitava sempre a oferta e dizia-me sempre "Eu não digo à tua mãe!" Meu Deus, nunca conheci um padre assim! Divertia-se que nem um louco, contava piadas estranhas! Todos os padres que conheci eram todos sérios e falavam sempre a mesma coisa. Mas aquele padre era diferente, ele ajudou-me a ser aquilo que sou hoje. Na última noite, fizeram todos festa. Na despedida o Padre Luciano chamou-me para falar a sós, e nunca mais esqueci das palavras dele. Olhou-me nos olhos e disse-me "És uma menina fantástica, tens que te libertar, não tenhas medo. Põe-te direita e segue em frente. Tu consegues, és mais forte do que aquilo que imaginas."

Apenas tinha conhecido o Padre há dois dias, e parece que através do meu olhar ele percebeu que algo em mim fazia-me sofrer. E quando disse disso, abraçou-me com força e disse que ia ter saudades minhas.

Já passou um ano, e agora sou uma pessoa mais feliz.

Obrigada por tudo.

 

publicado por Inêsquecível às 22:20 | comentar