Agora, sou o público.

Ontem foi o primeiro espectáculo que não participei, desde o inicio até ao fim senti um aperto no coração. Pela primeira vez na vida não estou a dançar ballet. Vi uma das minhas melhores amigas a representar o papel principal e fiquei muito contente ao vê-la. Maior parte do musical todas as minhas amigas do ballet dançavam sem parar, a coreografia estava muito gira. Muitas delas se enganaram, mas sei que o público não reparou. As bailarinas mais velhas (da minha idade) dançavam confiantes e fizeram muitas vezes piruettes na diagonal em pontas...estavam lindas. As mais novas via-se na cara delas aquele nervosismo que só se sente em cima do palco numa estreia. Sorri muitas vezes e pensava para mim...tudo isto é o meu mundo e tudo isto fazia parte da minha vida. Comecei a imaginar quando chegaram do camarim e começaram a vestir rapidamente e pintavam-se umas às outras e ouvia-se perguntas a toda a hora "estou bem??", "quem tem laca?!", "Bolas pus demasiado base!". Na hora da professora dizer "O espectáculo vai começar, meninas!" púnhamos todas em fila. Depois em cima do palco, a magia acontecia. Quase não conseguíamos ver o público porque o projector tinha uma luz demasiado forte, e ainda bem, assim podíamos concentrar melhor na dança. Enquanto eu via o espectáculo, imaginei estar ali, em cima do palco, com elas a dançar. Lembrei-me das quantas vezes me enganava no palco, achava-me desastrada e sentia-me a pior bailarina do mundo. Mas todas elas se enganaram, porque me sentia assim tão mal? Tirei muitas fotografias, e algumas vezes pedia à minha mãe para tirar porque preferia olhar para elas. Fui aos camarins no final do espéctaculo, e todas elas deram um berro quando me viram, e todas me deram abraços longos e apertados. O maestro, e todos os actores perguntaram-me porque não participei, eu disse apenas "Saí do ballet", e todos diziam-me o mesmo "mas sempre podes cantar! E representar!". Pois podia...mas não fui capaz de ir. E todos repararam nos meus olhos tristes. As saudades matam-me.

 

P.S.- Saí do ballet, porque sempre achei que não tinha jeito, queria tanto de ser perfeita a dançar que fui capaz de sair e desistir de tudo.

 

 

 

 

 

 

publicado por Inêsquecível às 10:52 | comentar